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domingo, 8 de abril de 2012

Cerco aos lícitos



“Além das drogas ilícitas, temos que combater as drogas lícitas, pois sabemos que o álcool e o tabaco são portas de entrada para outros entorpecentes do submundo”.

por Roney Moraes*

Os cigarros vendidos pela Souza Cruz tiveram aumento de 24% na última sexta. A medida ocorreu em função do reajuste do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) cobrado na droga lícita.
Em novembro de 2011, o governo publicou decreto adiando para maio de 2012 o aumento do IPI sobre cigarros. A cobrança deveria entrar em vigor no dia 1º de dezembro de 2011, mas o lobby e poderio das indústrias sobre as forças políticas perderam mais uma batalha. Felizmente.
 Há aqueles que ainda pensam mais no aumento da arrecadação do que em saúde pública. É neste caso que entram os que apoiam a medida por circunstâncias questionadoras do poder público. Utilizar da arma do inimigo contra ele mesmo. Essa é a estratégia.
Com as novas alíquotas, a previsão da Receita é mais que dobrar a arrecadação do IPI sobre cigarros, passando de R$ 3,7 bilhões por ano para R$ 7,7 bilhões em 2015.
De acordo com o decreto, em 1º de maio as alíquotas serão reajustadas de forma escalonada até 2015. De imediato. O aumento da carga tributária deve provocar uma alta de 55% no preço do produto no final do período, sobre os valores cobrados atualmente.
Sem dúvida essas medidas econômicas fazem parte da Convenção-Quadro para o Controle do Tabaco (CQCT) que é o primeiro tratado negociado sob a tutela da Organização Mundial da Saúde (OMS). Foi adotada pela Assembleia Mundial da Saúde em 21 de maio de 2003 e entrou em vigor em 27 de fevereiro de 2005. A partir de então é o tratado que agregou o maior número de adesões na história da ONU.
Seu objetivo é “proteger as gerações presentes e futuras das devastadoras consequências sanitárias, sociais, ambientais e econômicas geradas pelo consumo e pela exposição à fumaça do tabaco”.
Considerada um marco histórico para a saúde pública global, a Convenção-Quadro traz, em seu texto, medidas para reduzir a epidemia do tabagismo em proporções mundiais, abordando temas como propaganda, publicidade e patrocínio, advertências, marketing, tabagismo passivo, tratamento de fumantes, comércio ilegal e impostos, etc.
Além das drogas ilícitas, temos que combater as drogas lícitas, pois sabemos que o álcool e o tabaco são portas de entrada para outros entorpecentes do submundo.

Álcool
Medidas para diminuir o consumo do álcool também estão sendo programadas por profissionais que atuam com saúde mundial. A primeira delas é mexer no formato da propaganda, proibindo jovens de atuarem nas peças publicitárias e, ao mesmo tempo, impor um horário para exibição de tais filmes televisivos.
 O álcool contribui mais do que qualquer outro fator de risco para a ocorrência de acidentes domésticos, laborais e de condução, violência, abusos e negligência infantil, conflitos familiares, incapacidade prematura e morte.
Relaciona-se com o surgimento e desenvolvimento de numerosos problemas ou patologias agudas e crónicas de carácter físico, psicológico e social, constituindo, por isso, um importante problema de saúde pública.
Os hábitos de consumo diferem sensivelmente entre homens e mulheres, mas os homens consomem mais. No entanto, a idade de início do consumo é cada vez mais precoce e assiste-se ao aumento do consumo nos jovens e nas mulheres.
Muitos fatores contribuem para o desenvolvimento dos problemas relacionados com o álcool como sejam o desconhecimento dos limites aceitáveis quando se consome e dos riscos associados ao consumo excessivo.
Um dos benefícios de ser feita a detecção precoce é o fato de os indivíduos que não são dependentes do álcool poderem parar ou reduzir os seus consumos de álcool com adequada intervenção.

*Psicanalista, jornalista e teólogo
(28) 9969 6773 / 9277 8697 / 8111 3617


segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

O efeito borboleta...



“A alegria está na luta, na tentativa, no sofrimento envolvido. Não na vitória propriamente dita”, Mahatma Gandhi.

por Roney Moraes *

Berço cultural de inegável importância para o país, Cachoeiro de Itapemirim (ES), que se tornou a cidade da crônica, viu nascer grandes nomes da cultura nacional, como o cronista Rubem Braga. E para homenagear e manter viva a memória do aclamado “pai” da crônica moderna, o maior evento cultural do sul do Espírito Santo: a Bienal Rubem Braga novamente vem batendo suas asas, e, desde já, causando efeitos favoráveis para sua realização.
Para quem acompanhou de perto todas as edições da Bienal Rubem Braga, esta não será diferente. Enquanto que nas duas primeiras trabalhei diretamente para sua realização, com textos e assessoria de imprensa. Na última, meio que de escanteio, peguei carona na imaginação e permaneci como num casulo, mas ainda assim abastecendo o blog www.bragaebraga.blogspot.com com rasantes de informações atualizadas. Como o tema escolhido para a atual edição, digo que do escuro e do que pouco prometia é que saíram informações e contatos para alguns visitantes que até hoje conversam comigo via e-mail. Ou seja, do feio saiu a beleza. 
Apresentando a “borboleta” como temática, a IV Bienal Rubem Braga já causou o seu efeito. Entusiasta que sou não poderia deixar de colaborar. Acompanhada do mascote Zig, esta Bienal será inspirada na crônica “A Borboleta Amarela” escrita em 1955.
Com o objetivo de atingir todos os segmentos da sociedade, em particular as crianças, os adolescentes e os jovens, através das instituições de ensino públicos e privados, o evento reserva aos participantes uma extensa programação cultural, colocando frente-a-frente com o público grandes nomes da arte e cultura. Toda a programação acontecerá na Praça Jerônimo Monteiro, como na edição anterior, de 15 a 20 de maio. 
A bienal, em momentos anteriores, já recebeu alguns desses gigantes do universo acadêmico, da literatura, teatro, filosofia e poesia nacional como Affonso Romano de Sant'Anna, Tônia Carrero, Viviane Mosé, Ferreira Gullar, Antônio Nóbrega, Elisa Lucinda, Marco Antônio de Carvalho, Isabel Lustosa, Domício Proença Filho, Antônio Carlos Secchin, Ivan Junqueira, Roberto Da Matta, Beatriz Resende, Adriano Espínola, entre outros.

Do ponto de vista simbólico
O tema simbólico: “borboleta” reflete a transformação, metamorfose, metanóia (num sentido mais profundo de mudança). O que estamos fazendo para divulgar a cultura em nosso município e assim transformar a vida de inúmeros adolescentes que sequer têm interesse pela leitura, dita popular, que para a maioria deles é erudita? 
Poderíamos parar e utilizar a bienal para nos questionarmos quanto à mudança em nós mesmos. Neste momento, escrevendo este texto penso nisso. O surgimento de um novo aspecto em mim mesmo que pode melhorar a minha imagem. Então imaginemos juntos! Escritor e leitor. 
Encontrar o fator primordial dessa mudança não é assim tão simples, mas já sabemos o resultado. A recompensa é grande e a contribuição para a formação de jovens pensantes apenas com um simples ato de começar a pensar no assunto ou ler uma crônica é inegável. A lagarta sofre. Toda mudança causa sofrimento, mas, a partir daí que o “milagre” acontece. O próprio ser transformado deve quebrar as barreiras que impedem o seu resplendor. Arrebentar o casulo com as asas as torna fortes o suficiente para voar e sobreviver as tempestades que encontrará no percurso de sua vida. 
De um prisma humano, diria que se tornar borboleta é buscar a resiliência (termo da física que significa a capacidade de superação, tirando proveito dos sofrimentos, inerentes às dificuldades). É disso que o povo, os adolescentes e as crianças de hoje precisam. Que esta bienal rompa as barreiras da erudição e faça os mais humildes perceberem que o texto de Rubem Braga foi, é e sempre será popular, apesar de seu sincronismo entre o cotidiano, a literatura e o viés poético. 
Ela é sincrônica no sentido de que traduz uma simultaneidade, ou uma síntese não só atemporal, como espacial. A crônica não está mais ligada apenas aos fatos do cotidiano. Por exemplo, Luiz Fernando Veríssimo de repente fala do século IXX e não está mais ligado a um só espaço ou a uma cidade, mas a vários lugares.
Antes, a crônica era considerada um gênero produzido essencialmente para ser veiculado na imprensa. É claro, com raras excessões antológicas. Hoje, especialistas concordam que ela é plural porque tem várias formas, apesar de perseguir aqueles modelos estabelecidos por Machado de Assis, Rubem Braga, Carlos Drumond Andrade e outros. Por isso, sem querer deixar o Zig com água na boca, escrever crônicas, para muitos, são os ossos do ofício.

* Roney Moraes é jornalista, psicanalista, bacharel em Teologia, mestre em Filosofia da Religião, doutorando em Psicologia Pastoral e cronista.

A questão religiosa na política social



“Feliz de quem entende que é preciso mudar muito para ser sempre o mesmo”, Dom Helder Câmara

* Roney Moraes

A religiosidade (não se pode negar) tem um papel fundamental no que diz respeito às questões sociais concretas na atualidade. É comum, principalmente no movimento católico, membros da igreja engajados em atividades de militância política com objetivo de melhoria da sua comunidade eclesial de base.
Diante desse ponto de vista, a Teologia pode ajudar as outras ciências destinadas à pesquisa do comportamento humano, seja individual, como na psicanálise, ou no coletivo, como na sociologia.
Sendo, ainda hoje, a instituição mais confiável para a maioria dos que professam a fé, na igreja, as reuniões para ações que visam a política como representatividade nas esferas de poder, tanto no executivo quanto legislativo ecoam nas catedrais e nas construções protestantes mais modernas.
Isso não é uma crítica. É uma constatação apenas. A igreja, que está inserida na sociedade de maneira especial e fervorosa, não pode e não deve ficar fora das questões que implicam mudanças legais e executivas para com seus fiéis. Portanto, igreja, política e sociedade estão ligadas através da militância sóbria e sadia. Mas, sem dúvida, há aproveitadores em todas as esferas e é necessário identifica-los para que as ações da igreja realmente afetem, ou seja, mudem para melhor a sociedade.
É comum membros de a igreja fazerem parte de associações, como de moradores, e ampliarem assim a capacidade de atendimento e ações de ambas as entidades para o bem comum do ambiente onde as duas exercem suas esferas de influência.
Na igreja, por exemplo, há uma mediação para promover o bem comum. É na eucaristia que os abismos que separam os homens por classes sociais deixam de existir como um “milagre”.
O processo que envolve o ambiente propício para a discussão de questões políticas e sociais dentro da igreja, dentro da igreja, apesar de tudo, não é fácil, mas há aqueles que persistem em agir, mesmo contrariando uma minoria fundamentalista (que cresce a olhos vistos), em prol da maioria.   

* Roney Moraes é jornalista, cronista, psicanalista, bacharel em Teologia, mestre em Filosofia da Religião e doutorando em Psicologia Pastoral.

domingo, 6 de novembro de 2011

“Ao mal não se dá trégua”


Lemos drogas, ouvimos drogas, vestimos drogas, comemos drogas, bebemos drogas, pensamos drogas, falamos drogas... E julgamos...”, Ivan Santtana.

Na próxima semana, em Cachoeiro de Itapemirim, segundo informações oficiais, representantes dos municípios do Sul do Estado discutirão ações integradas sobre a questão das drogas. Esse assunto é bastante complexo e merece o destaque necessário pelo tamanho que o problema tem em todas as esferas de atuação (prevenção, intervenção, recuperação, reintegração, atuação política e repressão ao narcotráfico).

A programação prevê a realização de duas mesas redondas com especialistas que debaterão o incentivo à criação de novos conselhos municipais sobre drogas, a identificação e cadastramento das entidades que atuam na área na região, o estabelecimento de redes de gestores municipais antidrogas e a mobilização na busca de ações coletivas preventivas.

Para começar, antes da hora, qualquer busca por informações e soluções para a batalha contra esse inimigo visivelmente infiltrado em nossa sociedade é válida, mas, convenhamos, temos que mudar radicalmente nossa maneira de pensar e agir quanto às estratégias de combate às drogas. Primeiro porque é preciso ter serenidade e coragem para abordar corretamente o assunto.

“A droga é um mal, ao mal não se dá trégua”, assim disse João Paulo II em 1984. Estamos em 2011 e a sociedade brasileira ainda pensa que toxicômano é somente aquele marginal que faz uso de drogas ilícitas. Um grave erro que os gestores de políticas públicas antidrogas devem corrigir com munição pesada em informação, pra começo de conversa.

Aqui não tem nenhum puritano escrevendo. Muito pelo contrário. Assumo de peito aberto que dependente químico, sem generalizações, quase todo mundo é. Apenas alguns admitem e procuram tratamento.

Para que uma política antidrogas seja mais eficiente, é importante que se invista, também, em estratégias de redução da demanda e de redução de riscos, não se esquecendo das drogas lícitas. É importante ressaltar que a atenção e investimento dado para trabalhos voltados à comunidade, à escola e à área de pesquisa são essenciais.

O preconceito (isso à nível nacional) ainda é grande em relação ao uso de drogas (principalmente das ilícitas) o que interfere, sem dúvida, na prevenção e no tratamento. Como complemento, a maioria da população não considera droga todas as substâncias que, na realidade, possuem um maior consumo (álcool, cigarro, calmantes, remédios para emagrecer e outros).

Exemplo: em relação a investimentos no setor da saúde para tratamento dos dependentes não há nada nas cidades, nos estados, enfim, no Brasil inteiro. Um blecaute total. “O poder público nunca se preparou para essa epidemia de drogas”, dizem os especialistas. Até pouco tempo atrás, a questão das drogas era diferente. Tínhamos, e ainda tem entorpecentes ilícitos, como a cocaína em pó, que atingia principalmente jovens das classes A e B, que tinham condições de comprar e gastar dinheiro a ponto de tornarem-se viciados naquela droga. As famílias gastavam com tratamento em clínicas particulares.

Sem falar na maconha, muito mais presente e que não tem esse componente de vício absoluto como as formas atuais de cocaína. O crack é a cocaína com solventes cada vez mais baratos e sem chegar ao refino. As dificuldades vêm chegando a um estado alarmante porque o crack começou a atingir outras classes sociais, e, convenhamos, agora está incomodando “gente grande”.

O I Seminário de Políticas Públicas sobre Drogas do Sul do Estado será realizado no dia 21 de novembro, no auditório da Faculdade de Ciências Contábeis e Administrativas de Cachoeiro de Itapemirim (FACCACI), com início às 8h. A iniciativa é do Conselho Municipal de Prevenção e Políticas sobre Drogas (Comsod).

Qualquer que seja o resultado é apenas o começo. Temos que levar em consideração ainda que a velocidade com que as novas drogas aparecem, como o recente pinóxi ou oxi, por exemplo, é bem maior do que as alterações legais e discussões necessárias para o combate corpo-a-corpo. De qualquer maneira devemos utilizar essa “desvantagem” como informação valiosa. Sabendo disso, estamos um passo à frente, pois acredito que quanto mais informação sobre o inimigo melhor para o combatente.

Curtas & Grossas

+ “Sexo, drogas e rock'n'roll, livre-se das drogas e você terá bastante tempo para os outros dois", Steven Tyler.

+ G1: "Em SP drogas são escondidas em notebooks." Eu já sabia disso faz tempo. Se chama Windows”, Danilo Gentili.

+ Querem proibir as drogas vendidas em becos ao invés de proibir primeiro as que vendem em bares, drogarias e supermercados.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Um minuto de silêncio é muito pouco


“Aqueles que amamos não morrem partem antes de nós”.

Triste e lamentável o massacre na Escola Municipal Tasso da Silveira, em Realengo, no Rio de Janeiro. Apesar do crescimento da violência nas escolas em todo o país, não há notícia de que algo semelhante tenha acontecido no Brasil. Sem dúvida foi um ato fora do comum proveniente de uma pessoa com sérios distúrbios mentais.
O que dizer ou deixar para as famílias que perderam suas crianças? Um minuto de silêncio é muito pouco para lembrar do banho de sangue no colégio e do pânico em que alunos, pais e professores sofreram nesta quinta-feira fatídica.
Chamou minha atenção, no episódio, além da sensação de impotência e de muita angústia, a carta deixada pelo assassino com ideias desconectas e de fundamento religioso.
Quem era esse assassino do Realengo? Por que ele fez o que fez? A carta demonstra que ele tinha um pensamento delirante. Até o conteúdo religioso não é comum ao dia a dia do brasileiro. Os pedidos para banhar seu corpo, utilizar lençol branco, pessoas “impuras” não podiam tocá-lo me parecem mais enraizados na cultura oriental misturada ao ensinamento cristão da ressurreição. Sem dúvida, uma mistura esquizofrênica de simbolismos sagrados.
Wellington Menezes, pelo que entendi na carta, era psicótico. Não fazia distinção da realidade. E para o azar das crianças, segundo vizinhos, ele teria sido alvo de bullying, ou seja, teria sofrido atos de violência física ou psicológica na época em que estudava na mesma escola e talvez, por isso se “vingou” com o massacre. Nesse caso, poderíamos encontrar semelhança em episódios nos Estados Unidos, país onde com freqüência se tem notícia de atos considerados monstruosos como este que chocou a nação logo no café da manhã.
Não podemos permitir que acontecimentos extremos como o de Realengo se repitam. É necessário um profundo questionamento sobre o que realmente levou um jovem de 23 anos a cometer tamanha crueldade se baseando em uma crença, que, neste primeiro momento, me parece fanática e fundamentalista.
É hora dos pensadores deixarem de lado divergências conceituais e se unirem para cortar o mal pela raiz. Autoridades públicas, psicanalistas, filósofos, religiosos, educadores, todos engajados para uma solução a curtíssimo prazo.
Antes isso do que num futuro próximo lamentarmos com mais freqüência massacres em outras comunidades. Para isso é necessário iniciativa. A Igreja já se manifestou sobre o caso.
O arcebispo da arquidiocese do Rio de Janeiro, dom Orani João Tempesta, divulgou nota lamentando o atentado na capital fluminense. Também a presidenta Dilma se emocionou ao comentar os assassinatos dos “brasileirinhos”.
Então termino com o que o arcebispo do Rio de Janeiro disse. Segundo ele, o atentado “feriu não só aqueles que foram atingidos, mas também a todos os cariocas”, e, completo, incluído neste mesmo sentimento todos os brasileiros.

domingo, 3 de abril de 2011

Só pode ter formiga atômica dentro da calça


Uma formiguinha me contou que um deputadaço apresentou um projeto de lei que proíbe a construção de usinas nucleares em solo capixaba. Que pena. E eu que estava com uma vontade bombástica de me filiar no PRONA agora desisti de vez. Dizem que um técnico gabaritado de Springfield estava a caminho, mas, por incrível que pareça, desistiu da empreitada. Sua esposa de cabelo azul laqueado e seus três filhos pesaram na balança. Foxda-se!
Bem, o local exato para a construção da usina seria, sem dúvida nenhuma, o litoral sul, Marataízes, Itapemirim ou Kennedy. Pensem bem. As vantagens seriam enormes.
A energia nuclear não contribui para o efeito de estufa; não polui o ar com gases de enxofre, nitrogênio, particulados, etc.; não utiliza grandes áreas de terreno: a central requer pequenos espaços para sua instalação; não depende da sazonalidade climática (nem das chuvas, nem dos ventos); pouco ou quase nenhum impacto sobre a biosfera; grande disponibilidade de combustível; é a fonte mais concentrada de geração de energia, a quantidade de resíduos radioativos gerados é extremamente pequena e compacta; a tecnologia do processo é bastante conhecida.
Além disso, o risco de transporte do combustível é significativamente menor quando comparado ao gás e ao óleo das termoelétricas e não necessita de armazenamento da energia produzida em baterias. Não seria legal? Mais emprego, mais renda, mais royalties e menos poluição. Uma propaganda radiante esta.
Imaginem quem viria comandar a usina nuclear? Que japonês que nada! Made in Taiwan... O problema é se uma marolinha atingir as instalações... A coisa complica. Ainda mais uma marola maratimba cheia de detritos, e coisas que não se dizem no café da manhã.
Outra informação divulgada no formigueiro atômico da Assembléia Legislativa é de que o mesmo deputado quer acabar com a famosa “volta do caixão” no Rio Itapemirim de Cachoeiro. Ora, para ele isso é como tirar pirulito de criança ou voto de analfabeto funcional. Basta encontrar o cajado de Moisés, bater com ele na margem do rio, e pronto. Tá feito o milagre.
O problema é que quando começam a fazer coisas mirabolantes não conseguem parar. Primeiro foi o Mijódromo, quer dizer, a Torre que fabricava chuva (sic). Lembram? Passou até no Jô Soares. Ainda bem que naquela época não existia Kibe Loco, Jacaré Banguela, Stand up... Mas o extinto site Cachoeiro Post registrou a façanha com muito humor e sarcasmo.
Como no título, parece que uma formiguinha atômica fica cutucando dentro da cueca até surgir outra ideia dantesca. Quem sabe salgar o rio não seria outro projeto arrojado? Para que ir à praia se o mar pode estar à beira rio? O problema será no fim do ano. Em vez de enchente teremos tsunami.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Escola: lugar de ensinar ou de guerrear?


"Uma escola onde os alunos mandassem seria uma escola triste. A luz, a moralidade e a arte serão sempre representadas na humanidade por um conjunto de mestres, uma minoria que guarda a tradição do verdadeiro, do bem e do belo", Ernest Renan.

O caso da professora que foi assassinada a sangue frio com três tiros na frente dos alunos numa escola em São Paulo abre um parênteses para o problema que vem se alastrando por todo o país. A violência nas escolas.
Mesmo o crime sendo motivado por outras circunstâncias extra-curriculares, o fato é que os três disparos de arma de fogo aconteceram no início de sua aula de Educação Física na Escola Municipal Professor Paulo Freire e presenciada por vários estudantes.
A falta de respeito com a escola e com os educadores vem se alastrando por todo o país e longe de ser diferente em nosso próprio quintal. Recentemente uma professora de uma escola municipal de Cachoeiro de Itapemirim teve quer ser hospitalizada quando tentava apartar uma briga entre alunos. A violência foi tamanha que causou a fratura do dedo da mão da educadora.
Casos como esse não podem jamais ficar sem uma devida providência. Independente das motivações, os crimes contra a educação já passaram dos limites. Escola é lugar de ensino, aprendizado e não de combate.
Mas como combater a violência no ambiente escolar? Antes é preciso analisar e entender o contexto cultural, ambiental e motivacional dessas atitudes. A truculência tem um estopim e achá-lo é primordial para que o pavio não acenda por completo. Uma vez que a explosão da violência, como na guerra, pode atingir e ferir inocentes, como no caso da professora cachoeirense.
De uma maneira generalizada podemos, de imediato, imaginar que a desigualdade social das periferias é uma característica fortíssima quanto à atitude violenta de alguns alunos. E também os educadores devem perceber as mudanças da nova era informatizada. Tudo é rápido. A informação, o desrespeito, o afeto, as brigas, o amor, as intrigas. As vias de fato se dão em um instante, sem direito de argumentação de defesa, e por isso, quase que sempre, a volta da normalidade entre partes envolvidas no embate violento é da mesma maneira como começa. As consequências duradouras são ambientais, portanto, as marcas são difícieis de apagar, já o ato... Não é de se estranhar se dois adolescentes envolvidos numa briga na segunda voltem a conversar normalmente na quarta.
Conforme artigo publicado em site europeu, especialistas em educação concluem que o aumento da violência escolar se deve em parte a uma crise de autoridade familiar, onde os pais renunciam a impor disciplina aos filhos, remetendo-a para os professores.
Não podemos esquecer que o aparelho estatal no quesito punitivo é muitas vezes ausente nestes casos, deixando os profissionais da educação quase que sempre de mãos atadas em distúrbios como esse cada vez mais frequentes.
Nunca foi tão acertada a frase do autor de "Uma investigação sobre a natureza e a causa da riqueza das nações", Adam Smith, que diz: "o grande segredo da educação consiste em orientar a vaidade para os objetivos certos."
É nesse ambiente de vaidade, hostilidade e de emoções à flor da pele que vivem os professores diariamente. Não basta ser educador, é preciso também ser sociólogo, analista, juiz, e, em muitos casos, sacos de pancada.